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A história mundial sempre teve que enfrentar momentos obscuros e de alienação profunda e os quadrinhos também tiveram o seu Fahrenheit 451. Isso aconteceu cerca de 60 anos atrás, durante a era do macarthismo, quando os quadrinhos tornaram-se uma ameaça, causando um pânico que culminou numa audiência no Senado americano, em 1954. Isso, é claro, não quer dizer que o macarthismo e o pânico pelos quadrinhos fossem comparáveis ​​com a escalada reacionista humana. Mas eles compartilharam os mesmos sintomas do medo e uma resposta áspera de parte da sociedade.

Queima de Quadrinhos, 1948 em Binghamton, Nova York

Diante dessa ignorância, políticos e religiosos resolveram criar o Código dos Quadrinhos, um conjunto de regras que especificava o que as HQs podiam ou não fazer e isso prejudicou muito o surgimento de personagens mais humanos na época, pois o bem tinha que triunfar sempre sobre o mal. O governo tinha que ser respeitado, os casamentos nunca terminariam em divórcio e os editores precisavam aceitar esse novo código maluco.

O que os adultos achavam que era melhor para as crianças, acabou censurando e dissolvendo anos de progresso nessa arte, bem como Histórias em Quadrinhos que desafiavam as visões sobre gênero e raça. Conseqüentemente, isso consolidou a ideia de que os Quadrinhos era um meio para crianças, algo que só recentemente começamos a desacreditar.

Antes da criação desse Código as HQs estavam vivendo um período em que os historiadores chamam de Idade de Ouro dos Quadrinhos e as histórias floresciam sem qualquer competição direta de outros meios de comunicação. Histórias com super-homens levantando carros, que tinham uma arte envolvente, eram mais divertidas do que livros de capa dura caros e ideais para o público durante a Grande Depressão americana e a Segunda Guerra Mundial. Sagas criminais e faroestes ofereciam histórias e imagens que o rádio não conseguia mostrar.

Todos liam e as pessoas que produziam quadrinhos na época, ilustradores, escritores e criativos, eram frequentemente imigrantes e minorias que foram excluídas dos campos editoriais de alguma forma. Portanto, histórias mais humanas e reais estavam sendo criadas.

Personagens desenvolvidos durante este período ainda estão entre os mais populares até hoje. Mulher Maravilha, Batman, Super-Homem, Tocha Humana e o Capitão América foram todos criados nessa época e esses títulos exploraram questões de raça e gênero. Havia Quadrinhos em que super-heroinas, como Woman in Red, estavam lutando contra os senhores do crime e pilotando aviões.

Havia também uma HQ chamada All-Negro Comics, publicada em 1947, feita por escritores negros e desenhada por artistas negros, que apresentava personagens negros enfrentando crimes misteriosos.

Mais e mais quadrinhos começaram a abrir suas asas e explorar as paixões e fixações culturais urbanas. Alguns deles até mergulharam em sangue e horror, como a EC Comics, que começou a publicar quadrinhos de terror como Tales from The Crypt e Grim Fairy Tale, que mostrava os contos de fadas clássicos de uma forma horripilante e com histórias violentas.

É lógico que isso incomodava a caretice humana e um grande número de adultos passou a reprimir essa arte, chegando a queimar HQs em Binghamton, Nova York, em 1948.

Havia uma pressão intensa vinda de grupos religiosos e familiares e eles estavam tentando vincular os quadrinhos à delinqüência juvenil, de uma forma exagerada e falsa. Algo que ainda precisamos conviver em pleno século XXI.

Políticos e conservadores americanos censurando HQs

Esse medo doentio da época, não difere da maneira como as pessoas vinculam os Games ao crime violento hoje em dia. Em ambos os casos, os conservadores ignoram os milhões que lêem quadrinhos ou jogam video games e não se tornam violentos ou delinquentes.

Em 1954, o psiquiatra e escritor Fredric Wertham aproveitou esse retrocesso e publicou o livro The Seduction of the Innocent. Esse livro fazia afirmações difíceis de substanciar, sugerindo que a Mulher Maravilha era lésbica, Batman e Robin eram gays e as Histórias em Quadrinhos estavam influenciando negativamente as crianças. Isso bastou para uma verdadeira caça às bruxas aos criadores de HQ, coincidindo com o macarthismo que iniciava nos Estados Unidos, o que adicionou mais lenha à fogueira da censura.

Para salvar a aparência e o próprio emprego, os editores de quadrinhos sobreviventes resolveram criar a Association of Comics Magazine Publishers, que desenvolveu o repressor Comics Code Authority, um código criado para tentar acalmar a sociedade.

O tal Código era lamentável e sugeria vários retrocessos. Veja abaixo:

Repressão às imagens “sexy”; sem imagens de nudez

Os criminosos devem ser sempre maus e nunca triunfar sobre os bons e os quadrinhos devem deixar claro que eles não devem ser imitados.

Figuras de autoridade (policiais, funcionários do governo, organizações) devem ser respeitadas.

Proibição da tortura.

Lobisomens, zumbis vampiros não podem ser usados.

Fim das gírias e linguagem vulgar.

Uma ordem para respeitar a santidade da família ou seja, nenhum divórcio ou homossexualismo.

Proibição dos quadrinhos que falam sobre preconceito racial e religioso.


Se um quadrinho passasse nessa censura absurda, ele receberia um selo de aprovação e os distribuidores só podiam vender quadrinhos aprovados poe esse Comics Code.

Muitos criadores de HQ saíram do mercado e os quadrinhos passaram a ter um boom de histórias de super-heróis bonzinhos e vilões patetas. Com esse código em vigor, os quadrinhos underground surgiram e ganharam muita popularidade. Eles não tinham que obedecer essa censura maluca e ofereciam um material mais picante do que o que os quadrinhos convencionais estavam produzindo.

Com isso, alguns criadores levaram a forma de criar Quadrinhos para um outro nível, desafiando e contornando o código. Roy Thomas, da Marvel, deu aos leitores o escuro e distorcido Ultron, em 1968, um cavalo de Tróia repleto de um complexo de Édipo e uma mensagem macabra sobre tecnologia e controle da humanidade. Thomas satirizou discretamente o perfil dos vilões que vieram depois do Código dos Quadrinhos tornando-os, simplesmente, capangas de Ultron.

O lendário Jack Kirby, também escondeu comentários sobre grandes ideias políticas e sociais dentro de suas histórias de super-heróis, como o Pantera Negra. Além disso, os quadrinhos cósmicos dos anos 70 dançaram delicadamente em torno da ideia de drogas psicodélicas e podemos enxergar isso nas páginas coloridas das HQs.

Stan Lee, sempre ele, teve o que foi considerado o maior “F you” do código, em 1971, quando elaborou um enredo de abuso de drogas em Amazing Spider-Man #96 a 98. Esse movimento minou o poder do código e a DC Comics, logo depois, seguiu o exemplo de Lee naquele ano, criando uma história de abuso de drogas em Lanterna Verde / Arqueiro Verde #85 e 86.

Nos anos seguintes à essa revolta de Lee, o código foi finalmente reescrito e passou a permitir que os criadores explorassem tópicos mais sombrios e criassem vilões tão interessantes quanto os heróis. Acabando de vez com uma das regras do código, que dizia que os leitores não podiam simpatizar com um vilão. Ainda bem que esse código foi revisto, senão não teríamos personagens como o Coringa, Loki e Esquadrão Suicida.

Não é difícil imaginar o que teria acontecido aos super-heróis se o código nunca existisse? Esse renascimento dos quadrinhos poderia ter acontecido bem antes? Que tipo de histórias perdemos, graças às gerações algemadas pelo Código dos Quadrinhos?

Nunca saberemos e isso reforça a necessidade de lutarmos sempre contra qualquer tipo de censura, permitindo que a sociedade nunca deixe de evoluir.


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