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Nesse mundo onde o ultranacionalismo junto com uma intensa divisão política que abraça o fascismo, ainda há espaço para o super-herói padrão?

De acordo com Eric Kripke, roteirista da série The Boys, da Amazon, pode não haver.

Em uma entrevista recente para o The Hollywood Reporter, Kripke falou o que ele pensa sobre os super-heróis. O roteirista de The Boys acredita que eles são responsáveis ​​pelo aumento da política de extrema direita no mundo. Na verdade, Kripke disse abertamente que, quando se trata de histórias clássicas de super-heróis, há esses fundamentos fascistas inegáveis e sempre presentes. Eles estão lá para proteger a América branca e patriótica. Mas isso é realmente verdade?

Com certeza não.

Lógico que não podemos negar que as histórias desses personagens, sempre foram repletas da retórica pró-americana, principalmente nas décadas de 1930 e 1940. No entanto, quem realmente já leu alguma HQ, logo de cara percebe que eles foram criados para proteger as pessoas, não os ideais. Afinal, esses super-heróis foram criados por pessoas marginalizadas, para defender os marginalizados de uma sociedade nociva.

Criadores icônicos como Stan Lee, Jerry Siegel e Joe Shuster, criaram personagens para derrubar noções anti-semitas que estavam em ascensão. Eles desenvolveram os super-heróis para defenderem os ideais americanos e não os ideais que a nação tem, apenas aqueles que a construiram. À medida que algumas questões ficaram mais constantes no mundo inteiro, como o racismo e a misoginia, esses super-heróis começaram a enfrentar esses problemas. Portanto, eles lutaram contra a opressão dos menos favorecidos, como vemos claramente nas primeiras histórias do Capitão América.

Essa luta contra a opressão fica bem clara na icônica imagem do Super-Homem, criada em 1949, que afirma. “Se você ouvir alguém criticar um colega de escola ou outra pessoa por causa da religião, raça ou origem, não espere: diga a ele: “Isso Não Representa a América”. Uma mensagem bem clara que pretendia unificar o País contra a onda de ideais da supremacia branca.

Os quadrinhos dos X-Men, por exemplo, sempre teve personagens que representavam muitas minorias e mostrou os personagens enfrentando o preconceito e a violência.

Em um momento da entrevista, Kripke afirma diretamente: “eles estão protegendo o status quo.” Isso é fundamentalmente falso quando falamos sobre quadrinhos e como essa arte têm sido totalmente inclusiva. A conclusão de Kripke decorre de um mal-entendido fundamental sobre a mensagem que os quadrinhos oferecem. Uma visão totalmente errada, que acaba gerando opiniões perigosas.

No programa The Tonight Show, Jordan Klepper entrevista um homem que compara Trump ao Homem de Ferro de Tony Stark. O entrevistado chega a dizer que ele é o primeiro presidente super-herói. Klepper responde a essa afirmação apontando que Tony Stark acredita na ciência, algo que Trump nunca faria. É nesse tipo de análise confusa que fica o perigo. Algumas pessoas opinam sem entenderem o contexto da obra, algo que acontece muito nas Redes Sociais.

Outro exemplo clássico é como o personagem O Justiceiro, Frank Castle é visto e entendido. O Justiceiro é um anti-herói violento e sempre está segurando alguma arma. Por isso virou um ícone para a extrema-direita e muitos membros do Exército e da Força Policial. Pois o Justiceiro corrige os erros, mata bandidos e faz os malfeitores tremerem. O que eles não entendem é que O Justiceiro é um anti-herói, conforme descrito pelo seu criador Gerry Conway. O personagem não pretende ser um ídolo para ninguém, muito menos um herói para os militares, a polícia e os nacionalistas de extrema-direita. E isso significa que ele também não é um super-herói e sim um revoltado. Mesmo assim o Justiceiro teve o seu uniforme alterado, recentemente, retirando a caveira tão adorada por aqueles que espalham o ódio.

Insinuar que personagens como o Homem-Aranha, um pobre órfão do Queens, estão no mesmo nível de outro criado para ser um dos seus inimigos, como O Justiceiro, é algo muito falso. A ideia de que os super-heróis são em sua essência fascistas, é um problema sério. Pois acaba separando as pessoas reais das escolhas que elas estão fazendo. Quando idolatram super-heróis problemáticos, eles negligenciam totalmente a influência positiva que esses personagens supostamente têm. Chegam ao ponto de reconstruí-los, para que eles se encaixem em seus moldes fascistas e violentos.

A ideia por trás de The Boys é mostrar que se as pessoas reais tivessem superpoderes, elas certamente seriam corruptas. Mas acho isso totalmente falso. Na verdade se pessoas corruptas tivessem os poderes de um super-herói, elas os usariam à favor da corrupção. Da mesma forma que um policial ou político corrupto usa o seu poder, todos os dias, para favorecimento próprio.

Super-heróis lutam por um futuro melhor e não creio que o racismo, o fascismo, o xenofobismo e outros problemas que a sociedade vive, contribuam para que o nosso mundo evolua.

Podemos ver os super-heróis flertarem com o fascismo na HQ O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), de Frank Miller. Essa HQ reinventou o Super-Homem como um lacaio do governo e que fica no caminho de Batman. Essa história em quadrinhos que apresenta um super-herói com uma orientação moral menos claras do que, digamos, o Capitão América. Aliás, o Capitão América foi criado com a intenção explícita de lutar contra os fascistas.

Nos filmes ou nas HQ de super-heróis eles defendem, na maioria da vezes, algo diferente dos valores fascistas ou hipercapitalistas. Nem todo super-herói utiliza sua superioridade física para salvar o mundo. Muitos deles utilizam a ciência, a inteligência e não precisam de armas e músculos. Esses heróis lutam para que todos tenham direito à vida, à liberdade e que encontrem a felicidade. Os super-heróis deixam claro que os únicos fascistas das histórias em quadrinhos são os supervilões. Esses, como algumas pessoas da vida real, acham que o Mundo não é para todos.

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