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Em março do ano passado uma pandemia alterou drasticamente a vida de várias crianças pelo mundo. A interação presencial das escolas foi substituída pelo EAD e a socialização dessas crianças passou a ser totalmente digital.

No domingo, o jornal The New York Times publicou um artigo sobre os riscos do uso de dispositivos eletrônicos por adolescentes e crianças durante a quarentena e, lógico, eles foram direto culpando os pais. Na reportagem eles publicaram umas fotos piegas de uma família arruinada por um jogo, com a frase: “Eu falhei com você como pai”. Como sempre, fizeram comparações curiosas e ridículas com o vício em drogas e afirmações vagas sobre a natureza impressionável dos cérebros dos jovens.

Jogo videogame desde a época do Atari, frequentei muitos Fliperamas na minha infância e posso afirmar, com toda a certeza, que os games sempre foram discriminados pela sociedade. Por isso, antes de correr para cortar a assinatura do Playstation Plus do seu filho, vale a pena colocar as coisas em uma perspectiva mais real.

Estamos no meio de uma crise mundial e os últimos dez meses foram difíceis para todo ser humano na face da Terra. Vimos saltos históricos na depressão e no abuso de substâncias, mesmo entre adultos e como fugas saudáveis ​​são cada vez mais difíceis de acontecer, o entretenimento digital conquistou muitos de nós no último ano. Para muitas crianças, os games online são um dos poucos lugares para elas levarem uma vida social quase normal, razão pela qual muitos especialistas enfatizam que tenhamos uma abordagem equilibrada, em vez de um corte direto e radical desse entretenimento.

A interação digital é uma coisa incrivelmente valiosa, e descartá-la por causa do pânico abstrato da tela é muita irresponsabilidade dos pais. Sempre procuro incluir outras atividades entre os jogos online, principalmente nas férias, pois temos que perceber que essas crianças não podem ir jogar bola todos os dias, ir ao cinema e muito menos encontrar um grupo de amigos. Afinal, todos temos responsabilidades no controle dessa pandemia.

Show do DJ Marshmello no Fortnite

O artigo do NYT aborda brevemente a socialização online, mas o guarda para uma espécie de reflexão irônica no final. Depois de bloquear seu filho do Xbox por algumas semanas, um pai observa: “Eu me sinto mal quando tento restringi-lo. É a sua única socialização.”

Para muitas crianças, esse é o ponto. Espaços online como o Fortnite são a única maneira de sair com os amigos para jogar e até assistir um show ao vivo, como os do DJ Marshmello e do Rapper Travis Scott, que por sinal foram vistos por várias famílias. A socialização está acontecendo assim e, enquanto o contato pessoal for um risco à saúde pública, esses serão os únicos lugares em que os encontros acontecerão.

É importante que as crianças encontrem outras crianças, então cortar o tempo de tela as isola ativamente, causando danos mais concretos do que ficar conversando e jogando online com os amigos. E a única razão para cortar os games, é a ideia persistente e errada de que a socialização online de alguma forma não conta. O que é um erro gigantesco.

O Rapper Travis Scott no Fortnite

O que estamos passando tem menos a ver com o tempo de tela e mais a ver com os antigos problemas da vida social das crianças e adolescentes, antes dessa pandemia. Existem muitas coisas socialmente saudáveis que você pode fazer online, assim como existem coisas insalubres e isoladas que você pode fazer offline. Ver essa socialização acontecer em uma tela, não é o principal problema. É lógico que devemos ficar preocupados com espaços online que são prejudiciais à saúde, como a cultura dos distúrbios alimentares que vemos no Instagram ou o lixo incel que aparece no Reddit, mas o problema com esses espaços é que eles não são saudáveis por estarem online, eles são prejudiciais em qualquer ambiente.

Considerar a Internet e os games como os principais problemas, apenas confunde as coisas e incentiva os pais a isolarem um dos poucos canais sociais saudáveis ​​que os filhos utilizam. Compreendo que os pais também possam ficar deprimidos e ansiosos. Existe uma tonelada de motivos para se estressar nesse mundo atual e tenho certeza de que é alienante ver seu filho jogar Fortnite o dia todo. Mas, se você está preocupado em perder o contato com eles, é porque deve ser hora de pegar um controle e passar algum tempo no mundo que eles tanto adoram.

Depois vai ficar mais fácil convidar seu filho para ler um livro com você.

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