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Recentemente, reli Memórias Póstumas de Brás Cubas. É impressionante a contemporaneidade do romance de Machado de Assis. Lançado em 1881, quando Machado já era consagrado, afasta-se diametralmente do romantismo. Não tenho conhecimento de teoria literária suficiente para dizer que inaugura o Realismo no Brasil, mas certamente é um dos primeiros. E, embora em termos concretos e tecnológicos estejamos muito distantes da época em que foi escrito, a mentalidade do protagonista, egoísta e voltado ao hedonismo inconseqüente, é repetida nos jovens de hoje.

Até metade do romance é um filhinho de papai. Hoje diríamos um pleiba. Um sujeitinho que, embora inteligente, afinal escreve uma autobiografia depois de morto, com talento indiscutível, nada de produtivo realizou. Flanou pela Europa na juventude, torrando o dinheiro de papai rico, manteve um romance adúltero durante toda a vida adulta, herdou uma fortuna suficiente para manter-se sem trabalhar e, por fim – ou no começo – faleceu para contar a história. Não sei se por conta da proximidade da assinatura da Lei Áurea, quando um clima mais abolicionista se alastrava pelo Rio de Janeiro, a condição dos escravos só é mencionada para realçar a crueldade dos meninos brancos contra eles. Brás Cubas maltrata as pessoas escravizadas adquiridas pelo pai enquanto é criança. Após a morte do pai, mantém junto de si apenas o “moleque” que o acompanhou na infância, mas as menções são raras.

Machado de Assis

Enquanto relia este, li também uma biografia de Lélia Gonzalez. Que mulher! Que intelectual! Que inteligência! Já estou torcendo pelo relançamento da obra de Lélia, esgotada e sumida, inclusive, dos sebos. Tenho aqui as publicações em PDF, mas livros como os dela eu gosto de ter em papel, para poder anotar, sublinhar, refletir. A leitura no modo digital eu deixo para os romances e para a ficção que não me dá muito trabalho e leio só como entretenimento.

Lélia foi uma lutadora muito além de seu tempo. Talvez por causa da psicanálise tenha compreendido profundamente o lugar dela no espaço de poder. É dela o termo pretoguês, para designar a variação brasileira do idioma português, tão permeado por expressões vocabulares trazidas pelas pessoas escravizadas. Também o jeito de falar. Lélia abandona o falar erudito demais para se embrenhar em territórios mais populares e dialoga com todos. Volta-se para o Candomblé – e nisso, acho que temos algo em comum, porque eu também tinha admiração antropológica e materialista da religião e só depois dos trinta anos conheci os mistérios, me iniciei, mas essa história já foi contada aqui no blog (http://cristovam.art.br/2020/07/18/aniversario/) – e transita pelas escolas de samba. Foi uma ativista política atuante em várias frentes, inclusive na partidária.

Dentre todas essas atividades, é obrigatório destacar a participação de Lélia na fundação do Movimento Negro Unificado e na discussão do feminismo negro. Até Angela Davis, ícone do movimento negro estadunidense-do-norte, em fala numa palestra, se admira de intelectuais brasileiros e brasileiras não se apoiarem em Lélia, com quem a Angela diz ter aprendido enormemente.

A outra obra que foi lida, mas vista, é AmarElo – Tudo é para ontem, documentário sobre o show de Emicida no Teatro Municipal de São Paulo. Brilhante, comovedor e inspirador, o rapper traduz em filme uma parte importante da história do movimento negro. “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só atirou hoje” é o adágio yorubá que abre e fecha o filme e nos faz explorar a questão do tempo.

Eu ainda não conhecia muito bem as canções de Emicida, mas ontem eu me encantei profundamente com o trabalho dele. Ele, como Lélia, sabe o lugar que ocupa, entende de política pelo lado de dentro e pelo lado do oprimido, mas é libertário. Sabe falar, sabe articular as ideias e conversa com todos. Uma de suas falas me comoveu e eu me identifico “Escrevo como quem manda cartas de amor”. É isso. Eu também escrevo como quem manda cartas de amor, tão em falta ultimamente.

Por fim, sobre a questão do tempo, as colunas de Geovani Martins e José Eduardo Agualusa no Segundo Caderno d’O Globo de hoje falam sobre tempo. Geovani trata da abstração numerada do calendário – assunto sobre o qual também sempre me questiono – para falar sobre este ano. 2020 foi um susto, uma interrupção, um soluço, mas não uma solução, como esperavam os espiritualistas, enquanto Agualusa reflete sobre a chegada da sexta década de idade. As afecções de saúde, o fenecer de sonhos, as pequenas agruras que acompanham o envelhecer, mas que ele, por estar sempre se reinventando, não percebe tanto.

AmarElo – Documentário da Netflix

Eu não acredito em coincidências. Acho que o tempo está querendo me dizer alguma coisa hoje e, por isso, resolvi escrever este post. Quando eu descobrir a mensagem, prometo compartilhar aqui.

Por: Incansável Encantamento

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