Vou iniciar esse artigo com um trecho de uma entrevista que o escritor e bioquímico norte-americano, nascido na Rússia, Isaac Asimov deu em 1988:

“Sabemos que tudo na ciência é provisório, que não é totalmente certo, que está sujeito à mudanças. O que é realmente, na minha maneira de pensar, vergonhoso é ter um conjunto de crenças que você acha que é absoluto, que tem sido assim desde o início e que nada pode mudar. Onde você simplesmente não ouvirá as evidências. Você diz: “Se as evidências concordam comigo, não é necessário. Se não concordam comigo, é falso.”

Ontem assisti o quinto episódio da Série Fundação, do Apple TV+, que tinha o título: Ao Despertar. Esse episódio mostra a origem do conflito da personagem Gaal e porque, no início, ela ficou entre a fé e a ciência. Nesse resumo rápido sobre o episódio, podemos perceber que esse conflito é necessário para que Gaal se liberte de um passado opressor e fundamentalista.

“Vemos um flashback relacionado ao ritual e uma cerimônia realizada pela comunidade revela a origem do conflito entre a fé e a ciência. Foi quando Gaal expressou sua necessidade de frequentar uma universidade, apesar da relutância de seus pais. Este flashback também revela o início do contato entre o cientista e matemático, Hari Seldon (Jared Harris), sobre Gaal. No momento que ela mergulha para recuperar os livros que foram amarrados ao professor, que era amigo da família, Gaal consegue evoluir e se libertar.”

Simplificando um pouco a série, Fundação mostra todo o esforço de Hari Seldon, interpretado por Jared Harris, um pioneiro no campo da psico-história, que mapeia e prevê o movimento da política e da cultura ao longo dos milênios. Seldon, através de algoritmos, prevê o fim da ordem estabelecida e o colapso do Império Galáctico. Nesse caos que o futuro apresenta, o matemático tenta encontrar como um eventual renascimento pode surgir.

O que torna a série Fundação tão atraente é como alguns dos temas parecem familiares até hoje, cerca de 70 anos após a publicação do primeiro romance de Asimov. Em parte, isso se deve ao profundo conhecimento de Asimov sobre a ciência e as consequências potenciais de onde certas tecnologias e certas ideias, podem nos levar. E, como você descobrirá ao mergulhar nessa série, ou até ter algum interesse em ler os livros de Isaac Asimov, em uma era de crise climática, pandemias globais, corporações sinistras, tiranias fascistas e fundamentalismos lunáticos, seus avisos sobre o futuro da humanidade são atuais e ainda necessários.

Para entendermos um pouco como Isaac Asimov pensava, disponibilizo mais uma resposta que ele deu nessa entrevista realizada em 1988.

“Algumas pessoas presumem que os seres humanos não têm sentimentos sobre o que é certo e errado. E a única razão pela qual você é virtuoso, é por que esse é o seu bilhete para o céu? É a única razão pela qual você não bate em seus filhos até a morte, por que você não quer ir para o inferno? Parece-me um insulto aos seres humanos sugerir que apenas um sistema de recompensas e punições possa mantê-lo como um ser humano decente. Não é concebível que uma pessoa queira ser um ser humano decente porque assim se sente melhor? Porque assim o mundo fica melhor?

Eu gostaria de pensar – não acredito que jamais irei para o céu ou para o inferno. Acho que quando eu morrer não haverá nada. Isso é o que acredito firmemente. Isso não significa que eu tenha o impulso de sair e roubar e estuprar e tudo mais, porque eu não tenho medo de punição. Por um lado, temo os castigos mundanos. E, em segundo lugar, temo o castigo da minha própria consciência. Eu tenho uma consciência. Não depende de religião. E eu acho que é assim com outras pessoas também.

Além disso, mesmo em sociedades em que a religião é muito poderosa, não há falta de crime, pecado, miséria e coisas terríveis acontecendo, apesar do céu e do inferno. Quer dizer, imagino que se você for para o corredor da morte, um bando de assassinos talvez esteja esperando essa execução, pergunte se eles acreditam em Deus. Eles vão te dizer que sim.”

Certamente vou ter que reler Fundação, que li na década de 80, pois assistindo a série eu percebo que não lembro nada desse livro e certamente deixei escapar vários detalhes importantes. Além disso, Asimov é mais famoso pelo seu livro Eu, Robô (I, Robot), de 1950 e que eu só vi o filme, uma coleção de contos que apresentam as Três Leis da Robótica de Asimov. Trata-se de um conjunto de regras destinadas a proteger os humanos contra danos e garantir a coexistência pacífica entre humanos e máquinas. As Três Leis da Robótica são essas:

Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum dano.

Um robô deve obedecer às ordens dadas pelos seres humanos, exceto quando tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.

Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Lei.

Além da lei zero: “Um robô não pode prejudicar a humanidade ou, por inação, permitir que a humanidade sofra algum dano”.

Houve várias tentativas de adaptar a série Fundação ao longo dos anos. A New Line Cinema planejou uma trilogia cinematográfica no final dos anos 1990 e chegou a investir US $ 1,5 milhão na tentativa de fazer esse conceito funcionar. O fracasso em fazer esse projeto decolar, levou a New Line a investir na trilogia O Senhor dos Anéis. Jonathan Nolan foi inicialmente anunciado para trabalhar em uma série de televisão para a HBO, em novembro de 2014, ao lado de sua série Westworld. Enquanto Westworld apareceu na tela, Fundação teve que esperar um pouco mais.

Adaptar Fundação para o cinema ou TV sempre foi um desafio, pois o seu conceito é literário, filosófico e nem sempre é visual. Mais do que isso, Asimov fez o famoso planejamento para que a série durasse um milênio, como disse o executivo do Apple TV+, David S. Goyer: “Fundação mostra um jogo de xadrez, de 1.000 anos, entre Hari Seldon e o Império.” Há também o problema de Asimov nunca ter concluído o seu épico e até fez uma observação irônica sobre isso, no segundo livro Segunda Fundação, dizendo: “produtos que se acham perfeitos e totalmente finalizados, são para mentes decadentes.”

Para finalizar esse artigo e para que você perceba a importância do pensamento e das ideias de Isaac Asimov, disponibilizo abaixo o fechamento da sua entrevista, quando ele tinha 68 anos.

“Talvez não seja importante que todo ser humano pense assim. Que tal os líderes pensarem assim? Que tal os formadores de opinião pensarem assim? Pessoas comuns podem segui-los. Se não tivéssemos líderes que pensam exatamente da maneira oposta; se não tivéssemos pessoas gritando o seu ódio contra estrangeiros; se não tivéssemos pessoas gritando que é mais importante ser hostil do que amigável; se não tivéssemos pessoas gritando de alguma forma com aqueles que não se parecem exatamente com o resto de nós, que algo está errado com eles. Mais uma vez digo, quase não é necessário que façamos o bem. É apenas necessário que paremos de fazer o mal.”

Artigo: Hugo Machado

Assista ao Trailer da Série Fundação do Apple TV+

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