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Sempre foi difícil encontrar o filme Fama, que faz 40 anos, nas plataformas de streaming, mas agora esse clássico do cinema está disponível na HBO Max, para você assistir quantas vezes quiser. Vi esse filme no cinema quando ele foi lançado e a mensagem era clara, você nunca deve desistir dos seus sonhos. Mas você provavelmente precisará modificá-los em algum momento, especialmente se os seus sonhos envolvem uma carreira artística.

Estamos neste planeta por um período de tempo muito finito, com ainda menos tempo para nos dedicarmos à dança, música, atuação e várias outras carreiras artísticas. Simplesmente não há uma data de validade para se tornar um artista de sucesso, embora a grande maioria ache que a autopromoção, no mundo louco das Redes Sociais, possa dar o impulso necessário para a fama. Atuação, dança e música têm janelas muito mais estreitas para o sucesso, e essas janelas estão muito fora do alcance da maioria das pessoas. O Filme Fama, de Alan Parker, mostrou uma grande verdade sobre o show business e também sobre a vida: apenas ser talentoso e ambicioso, não é o suficiente para vencer.

Dividido em 3 capítulos, equivalentes aos anos do secundário estadunidense, o filme acompanha as histórias de pessoas que sonham com uma carreira significativa no “show business”, e destaca, desde o início, a frustração. Uma das personagens queria ser bailarina, então convida um amigo para fazer com ela o teste de habilidade específica. Ele que nem tinha o primeiro grau completo, mal sabia ler e não estava nada interessado em educação formal, foi aprovado. Interpretado pelo ator Gene Anthony Ray, Leroy Johnson é a cara da rebelião e da inconformidade dos negros naquela escola. Depois de aprovado, não tem paciência para as aulas teóricas, desafia o estabelecimento, mas tem um talento inato que faz com que os professores não desistam dele. A amiga que falhou no teste sai de cena.

Ao longo do filme, somos apresentados aos mais diversos dramas: os latinos Coco Hernandez e Ralph Garcey, o ítalo-americano Bruno Martelli, o irlandês Montgomery MacNeil e a judia Lisa Monroe são do grupo dos estranhos ao ambiente WASP dos EUA, mas são o recheio mais delicioso que esse drama pode ter. Suas histórias se entrecruzam com amor, música, dança e aulas de teatro. Tudo isso nos mostra o quanto é importante saber do que se quer falar, para falar com propriedade e atingir a um número maior de espectadores/leitores/plateia.

Fama fala através da música e tem uma trilha sonora com canções animadas e otimistas que fornecem um contraste gritante com a rejeição, contratempos cruéis e sonhos frustrados que os personagens experimentam no filme.
Além de horas de aulas de dança, música e atuação, os alunos devem manter um currículo acadêmico rigoroso e viver como se já fossem artistas profissionais. Como naquele tempo não existia o TikTok e o talento não podia ser efêmero, só restava aos personagens um trabalho constante, para que, no final, eles alcancem alguma ou quase nenhuma recompensa, mas muitas dores nas canelas. Os números musicais revelam aqueles momentos de diversão, que são apenas fantasias e como o público imagina a vida em uma escola de artes cênicas, até que Alan Parker nos traz de volta rapidamente à realidade e mostra uma das cenas mais duras do filme.

A cena apresenta a rica Hilary (Antonia Franceschi), grávida, falando em prantos, com uma enfermeira de uma clínica de aborto, que ela tem grandes sonhos e toda sua vida foi planejada para ser uma bailarina profissional. Mas, como o mundo capitalista é cruel, a enfermeira apenas pergunta num tom neutro: “o que você disser, querida”, e finaliza perguntando se ela vai pagar com American Express ou Mastercard.

Pôster Original do Filme Fama.

Cada personagem de Fama tem o seu drama particular, Montgomery, vivido pelo Paul MacCrane, que canta uma das canções mais lindas do filme, depois utilizada no comercial de calças USTop (isso denuncia a idade, mas, fazer o quê?) “Is It Ok If I Call You Mine”. Em 1980, embora Stonewall já tivesse acontecido 11 anos antes, a questão homossexual ainda era muito velada e Montgomery se apaixona por Ralph e canta para ele esse hino romântico, que traduzo livremente: “Tudo bem se eu te chamar de meu, só por pouco tempo? Eu vou ficar bem se eu souber que você sabe que eu quero, preciso do seu amor.” Lógico que Ralph o rejeita, mas aceita um beijo e a cena é muito lírica.

Fama acontece na década de 80, uma época em que a informática dava passos lentos, ninguém sonhava com uma rede mundial de computadores e a popularização dos PCs não passava de um desejo do Bill Gates. Fazer sucesso no mundo das artes e do entretenimento custava muito sangue, suor e lágrimas e a guerra por um lugar ao sol era muito acirrada (veja-se, a respeito, A Chorus Line). As plataformas de divulgação de conteúdo ponto a ponto, como o YouTube e as Redes Sociais subverteram essa lógica, tornando bem mais rápido, fácil e, consequentemente efêmero o sucesso.

Fama teve uma regravação em 2009, que eu não tive interesse em ver, pois o filme original sempre será eterno. Alan Parker fez questão de mostrar adolescentes reais, como todos nós já fomos, e eles são muitas vezes egoístas e infantis, voltando-se uns contra os outros no momento em que a insegurança aparece e por isso o filme é tão real.

A música de encerramento, a animadora e esperançosa “I Sing the Body Electric”, é muito chocante. A maioria dos alunos, antes mesmo de se formar no ensino médio, experimentou o gostinho de como o show business será implacável, mas eles vão continuar tentando de qualquer maneira. É tudo o que eles sabem fazer e o mundo continua gerando sonhos e uma leve esperança de que tudo pode melhorar.

Assista ao Trailer original do filme Fama.

Artigo: Hugo Machado e Incansável Encantamento

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