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Sempre ouvi que quadrinhos é coisa de criança, mas quem diz isso não sabe que Stan Lee criou personagens, na Marvel e DC, que não são sempre poderosos.

Esses personagens sentem dor, angústia, arrependimento, esses heróis ganham, mas também perdem. Além disso, muitos deles foram criados baseados nas lutas pelos Direitos Civis, na América da década de 1960. Quem sempre leu quadrinhos, percebe claramente as mensagens sobre tolerância, rejeição ao racismo e ao bullying. “Essas histórias têm espaço para todos, independentemente de sua raça, gênero, religião ou cor de sua pele,” disse Stan Lee. Por isso a Marvel tem super-heróis negros, gays, latinos e de todas as raças e gêneros, pois a preocupação da editora sempre foi apresentar o mundo real e os seu problemas.

A HQ Capitão América – A Verdade: Vermelho Branco e Negro (2003), que demorou a ser publicada no Brasil, mostra a verdadeira história sobre o soro do Super-Soldado. A origem do Capitão América foi totalmente baseada na história real dos infames Experimentos Tuskegee. Nessa HQ, Morales e Baker contam a história do primeiro Capitão América negro dos quadrinhos.

Nessa HQ ninguém veste o traje do Capitão América, pelo menos até a metade da revista. Isso para que você perceba que esta não é uma história sobre super-heróis. Esta é uma história sobre os maus-tratos aos negros em nome do patriotismo, com cada página mostrando como eles sempre foram humilhados. Seja pela sociedade pré-guerra, pelos militares, por cientistas e, finalmente, pela própria história do Capitão América.

Essa fantasia fictícia está totalmente enraizada na realidade. Robert Morales, que faleceu em 2013 e Kyle Baker criaram uma HQ inspirada em verdades históricas, que os americanos tendem a encobrir. O eugenismo americano e mundial, antes mesmo dos nazistas, desempenha um papel importante no crescimento de uma sociedade racista. Por isso, Morales criou um roteiro baseado no triste Experimento Tuskegee, onde homens negros, com sífilis, foram recrutados para uma experiência científica. Nenhum deles recebeu tratamento, quando ele se tornou disponível, tudo isso em nome da ciência. Além disso, Morales também se inspira em negros americanos como os Tuskegee Airmen, um grupo de pilotos de caça que lutou na guerra e sofreu assédio e racismo quando partiram para a batalha. Infelizmente, vários políticos e parte da sociedade queria impedir a participação de negros no serviço militar.

Tuskegee foi uma demonstração repulsiva de desrespeito pela vida humana e nenhum, dos quase 400 negros infectados pela sífilis, foi notificado sobre as suas infecções. Isso fez com que esses homens infectassem as suas esposas, filhos e possivelmente outras pessoas. Após o término desse estudo, em 1972, apenas 74, dos quase 400 homens com sífilis, ainda estavam vivos.

Em Verdade: Vermelho, Branco e Preto, Morales e Baker não descrevem essa história sobre o experimento Tuskegee, mas mostram Isaiah Bradley e outros soldados afro-americanos aceitando, involuntariamente, serem cobaias para o relançamento do soro do super-soldado, que criou o Capitão América. Infelizmente para Bradley e os seus colegas cobaias, os efeitos colaterais de tomar o soro causaram deformação física, doença mental e morte.

Quem nunca acompanhou a Marvel, possivelmente irá achar que essa HQ é um exagero e tem muito mimimi, algo que os haters das Redes Sociais gostam de falar em suas postagens, pois sempre falta argumento para esse tipo de pessoa. E argumento não é algo que falte para Morales e Baker, que usam os experimentos do Super Soldado, que criaram o Capitão América, como o núcleo da história e injetam muito realismo ao heróico personagem dos quadrinhos. A essência da HQ é que esses homens, convocados para o exército, mas indesejados por causa de sua raça, foram usados como corpos descartáveis para testar o soro que ofereceu super-força ao Capitão América. Na HQ Steve Rogers não é mais o herói nobre, que tomou a admirável decisão de servir o seu País. Ele agora é o resultado de centenas de experimentos fracassados, que mataram homens negros em nome da criação de um ícone branco e adorado por todos. Essa verdade estava escondida do Capitão América e nessa HQ ele parte para solucionar essa história sombria.

A HQ A Verdade traz, além do magnífico roteiro do escritor Morales, a arte caricata de Baker e o seu traço acrescentam uma camada humana aos personagens. Isso para apresentar as suas vidas pré-guerra e continuar a humanizá-los, trazendo suas ricas expressões emocionais, à medida que eles vão para a batalha. Quando os experimentos iniciam e as cabeças começam a explodir o traço de Baker torna a história muito mais inquietante e chocante. A violência e a tragédia dessa HQ são tão reais, que apenas um traço exagerado, como a arte de Baker, conseguiria retratar o sentimento dos personagens e a realidade cruel da história.

A Verdade: Vermelho, Branco e Negro nos leva à perguntas maiores e totalmente necessárias. Nos últimos 15 anos, demos um passo atrás e nos tornamos incapazes de reexaminar a nossa própria história? Temos compreensão sobre as questões de hoje e como elas podem modificar o mundo em que vivemos?

Quando soubermos responder essas perguntas, com certeza teremos uma sociedade mais inclusiva. Não vou falar sobre a última página dessa HQ, vou deixar que cada um determine se o final tocante desta minissérie foi feliz, ou não.

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