Assisti Fúrias de Titãs no seu lançamento, em 1981, e também nas várias vezes que ele passou na Sessão da Tarde e também na TV por assinatura. Minha mãe sempre parava para assistir, pois era um dos seus filmes favoritos, e eu acabava vendo com ela essa batalha de Perseu contra a Medusa e o Kraken.

Provavelmente, Fúria de Titãs é um dos filmes que eu mais assisti na vida, pois antes da TV por Assinatura eu alugava o filme naquelas antigas locadoras de filmes em video cassete.

Mas será que Fúria de Titãs realmente foi o meu filme favorito da infância? Lógico que não.

O filme começa com uma mulher e o seu bebê sendo lacrados num caixão e lançados ao mar, para terem uma morte horrível, lenta e muito dolorosa. Eles poderiam morrer afogados, sufocados ou enlouquecerem no meio de uma escuridão impenetrável. Mas, felizmente, eles sobrevivem e o filme corta rapidamente para uma cena de nudez leve, enquanto mãe e filho iniciam uma nova vida numa ilha paradisíaca. Como a sorte muda em questão de minutos no cinema.

Após essa cena bucólica o filme apresenta o sadismo da mitologia grega, que inspira totalmente esta história de Perseu, e mergulha na batalha contra os monstros mais terríveis do stop-motion. Calma, é claro que isso não era tudo que o filme de Desmond Davis apresentava para o público. Além dos horríveis monstros, temos sugestão de incesto e estupro, mutilação, decapitação, criaturas grotescas e muito sangue, apesar do filme ter censura livre.

Lógico que as crianças não percebiam toda essa tragédia grega, quando assistiam o filme, elas queriam mesmo é o verdadeiro mal, elas queriam o gigante Kraken, que até a sua aparição ficava bem escondidinho, só não sei como um bicho daquele tamanho conseguia se esconder. Mas são esses monstros fantásticos, misturados com uma aventura heróica e muita magia negra, que torna Fúria de Titãs um filme impressionante. É por isso que o filme continua sendo um espetáculo ainda emocionante para jovens e idosos, um conto de fantasia verdadeiramente assustador, graças aos seus efeitos especiais em Stop-Motion.

Essa extravagante animação em stop-motion garantia a verdadeira ilusão que o filme desejava transmitir. Ela conseguia nos convencer, mais ou menos, de que tudo era real e tornava a luta de Perseu ainda mais perigosa. É por isso que as crianças adoravam esse filme e, provavelmente, ainda adoram.

Estrelado por Harry Hamlin como Perseu, o menino banido de Argos, junto com a sua mãe, pelo ciumento Rei Acrísio, Fúria de Titãs segue esse corajoso jovem em sua busca para conquistar o coração da bela Princesa Andrômeda (Judi Bowker). Só que para realizar isso, ele deve superar a ira da deusa do mar Thetis e derrotar o gigante Kraken para salvar a terra natal de Andrômeda, Joppa e, lógico, a sua própria vida.

Para ajudar na batalha, Perseu recebe do seu pai, que era simplesmente o deus grego Zeus, armas mágicas que incluíam um capacete de invisibilidade e uma espada super poderosa. Com todo esse poder, Perseu parte par enfrentar escorpiões gigantes, bruxas coniventes, cães malévolos de duas cabeças e a terrível Medusa. Só que a sua jornada é atrapalhada pelo deformado Calibos, que, impulsionado por sua paixão por Andrômeda, persegue Perseu e seus soldados, decidido a impedir o seu sucesso.

Esse desejo, sem nenhum remorso, de explorar o que há de mais sombrio em nossos pesadelos, é o que faz a história de Fúria de Titãs ser tão potente. Curiosamente, o roteiro original foi submetido pela Andor Films ao British Board of Film Classification, um órgão que classifica filmes, para obter uma classificação que permitisse que as crianças pudessem assistí-lo nos cinemas. Lógico que alguns cortes foram solicitados, por que tinham violência ou nudez, mas o filme acabou recebendo um certificado A, que permitia que as crianças assistissem acompanhadas por um adulto.

Fúria de Titãs é um filme clássico onde o bem sempre triunfa sobre o mal. Em outras palavras, o filme mostra o triunfo do herói belo, moralmente correto e corajoso, sobre o vilão grotesco e nefasto. Mas o que realmente é sinistro e perturba, são as cordas que estão sendo puxadas pelos deuses e a visão de Zeus brincando com a vida humana, como se fossem pequenas peças de um tabuleiro de xadrez. O filme é totalmente inspirado pela mitologia grega e mostra como os antigos gregos acreditavam, convictamente, na sua fraqueza e fragilidade perante as forças da natureza e, por isso, consagravam a sua vida aos deuses, para terem força de lutar contra o mal.

Perseu montado em seu cavalo Pégaso, segurando a cabeça da Medusa e partindo para encarar o Kraken é algo inesquecível e que trazem muitas lembranças da infância.

Artigo: Hugo Machado


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